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Literatura: mouros & trovadores

Texto de Helena Barbas
27/10/2001 - in Expresso Revista

  A 1 de Julho de 1431 Castela vence o Reino de Ghamata: Granada para os cristãos. Uma data que pode ser usada como marco da rasura da influência árabe na literatura peninsular. Estava já longe o brilho do Al-Andalus (séculos X - XI), mas os seus ecos continuavam a fazer-se sentir nos músicos árabes contratados pelos reis, nos médicos que exerciam livremente, nos manuscritos a circular pelos meios eruditos. Álvaro de Córdova, um padre moçárabe (século IX), condenara já os cristãos que se haviam deixado seduzir pela cultura oriental, levando o abuso até ao cultivo da língua e literatura árabes - contra o latim, a língua oficial da Igreja. Menendez-Pidal (1869-1968) informa que a partir de 1130 as autoridades eclesiásticas espanholas mandaram verter as obras científicas dos árabes: Avempace, Avicena, Faradi, Averróis entre outros. Faradi traduziu Platão e Aristóteles. Averróis (1126-1198) comenta-os. Tem quatro textos sobre a «Poética», que pretende divulgar junto dos autores árabes para que dêem uma dimensão mais filosófica aos respectivos versos, demasiado preocupados com coisas do mundo. Compara as teses do grego com o Alcorão, o qual se apresenta como o mais elevado feito estilístico em árabe: também uma poética, mas intocável e inultrapassável. São conhecidos de todos os contos orientais - como a «Disciplina Clericalis» (1106), da autoria do judeu converso Pedro Alfonso - e tem peso grande a propagação dos cantares andaluzes no alimentar de um caldo cultural para o qual contribuíram cristãos, moçárabes, mouros, mouriscos e judeus. A tradição árabe fica latente e irá ser ressuscitada pelos românticos, ansiosos por um regresso às origens. Diz-nos Herculano: «Superiores nas letras, possuindo uma língua incomparavelmente mais culta do que os visigodos, dotados de costumes mais luxuários, de maior urbanidade no trato, e acrescentando a isto a brandura para com aqueles que a sorte das armas pusera à sua mercê, os árabes viram dentro em pouco os homens hispano-godos irem-se amoldando aos seus hábitos e ideias, (...). No século imediato à conquista, a influência da civilização muçulmana havia produzido nestes os seus naturais efeitos. Os costumes nacionais estavam obliterados e as novas gerações transformadas. Os engenhos mais brilhantes engolfavam-se no estudo da Literatura oriental: a Filosofia, as ciências e a poesia arábicas arrastavam todos os espíritos, e até o latim bárbaro, a língua escrita dos hispano-godos, se perdia esquecida no meio das pompas e elegâncias do árabe.» («História de Portugal», 8ª. ed., vol. VI, págs. 29-30). Note-se que os árabes a quem se refere têm a ver com os «mouros» vencidos por Afonso Henriques - hispânicos e berberes, originários do Norte de África.

Mas a influência na Literatura nasce muito do exotismo da figura da moura, semi-deusa, semi-sereia, que seduz pelo seu canto - como a destinatária dos versos de Saíde Ibne Tchudi (séc. IX), escrava cantora do emir Abdada: «Desde que su voz oí/ paz y juício perdi;/ y su dolce cantilena/ me dejó tan solo pena/ y ansiedad en pós de si./ Jamás á verla llegué/ y en ella pensando vivo:/ de su voz me enamore,/ y mi corazón cautivo/ por su cantar le dejé./ Quién por ti, Dschejana llora,/ tu nombre, escrito en el seno,/ pronuncia, y piedad implora,/ qual un monge nazareno/ de aquella imagen que adora». Um modelo das traiçoeiras «mouras encantadas» que, segundo Garrett, são as únicas figuras fantásticas que habitam o nosso folclore. Garrett também explora as relações amorosas entre mouras e cristãos, invertendo-as no poema «D. Branca» (1862), onde uma infanta portuguesa é raptada pelo último rei mouro de Silves.

Marca-se pois no século XIX o culminar de uma ideia, entre real e imaginária, sobre o peso cultural do Al-Andalus nas origens da poesia galaico-portuguesa e trovadoresca - a «tese arábica» que Rodrigues Lapa desmonta. Tem começo na proposta de Giammaria Barbieri que, no século XVI, se fundava no exotismo das cantigas dos trovadores, na antecedência do apogeu cultural que representou o Al-Andalus, na facilidade de contaminação intercultural entre árabes, cristãos e judeus, reforçada pelas influências comuns às respectivas religiões - a amálgama de seitas panteístas pagãs com cristianismo, judaísmo, maniqueísmo e Gnosticismo. Há afinidades entre o neoplatonismo trovadoresco e o misticismo árabe, que a heresia albigense vem reforçar. E não se pode esquecer que são atribuídos a árabes, como Ibn al-Arabi (1165-1260), os grandes tratados alquímicos do tempo. Em termos concretos, vamos encontrar o «zéjel», um poema de rima aa bbba ccca, a terminar com uma «carja» (2, 3 ou 4 versos), usada por Ayras Nunes, pelo Rei Afonso, «o Sábio», nas suas «Cantigas de Santa Maria», e tido por antecessor do vilancete - uma das formas portuguesas mais tradicionais. Nos primórdios, a «carja» - uma «finda» ou «coda» - em língua vulgar, apresenta algo de surpreendente e picante, uma rapariguinha com saudades do namorado, por exemplo: «Vai-se meu corachon de mib,/ ai Rab, si se me tornarád?/ Tan mal meu doler li-l-habib/ Enfermo yed, quando sanarád?» (Judá Levi, século XI). «Habib» quer dizer amigo, e quem fala é uma entidade feminina, o que reforça as associações com os cantares galaico-portugueses: «Ay amiga, sempr'avedes sabor/ de me rogardes por meu amigo(...)» canta Pero Mafaldo.

Algumas destas raparigas estropiam a linguagem dos cristãos. Facto que encontramos recuperado em «Um Auto de Gil Vicente», onde Garrett coloca a moura Tais, silenciosa e adormecida em Mestre Gil, já degradada e demonizada a falar castelhano,

É certa a influência árabe na literatura portuguesa, mas difícil de provar. Exerce-se principalmente por via do vernáculo, que não deixa registos escritos. Também existia um provençal erudito, e o vulgar. O primeiro, usado pelos trovadores literatos, chegou até nos, mas o facto de estes proibirem que se compusessem canções na linguagem popular, agravou mais ainda o desaparecimento de vestígios árabes. Porque os cantares andaluzes saudavam os amores, a vida e o vinho, estavam mais próximos dos goliardos. Talvez por isso os poemas de origem árabe que maior fortuna tiveram sejam os «rubaiat», as «Odes ao Vinho» do matemático persa Omar Kayan (1048-1131), que Scott Fitzgerald traduziu: um tema contrário às exigências muçulmanas, mas que para muitos constitui um sério tratado filosófico.