fechar janela

Azulejo: a arte que foi buscar o nome à cor do céu

Texto de Nair Alexandra
27/10/2001 - in Expresso Revista

Os primeiros azulejos denunciavam nas cores e nas formas geométricas, o traço indelével árabe

Dentro do legado islâmico em terras portuguesas destacam-se os ladrilhos de cerâmica vidrada cujo nome bebeu nas raízes da língua árabe: azulejos. A palavra terá tido a mesma origem que o nome da cor do céu - azul - ou que a pedra daquela coloração viva que tanta história fez no Próximo Oriente Antigo: lápis-lazúli. Com a ocupação muçulmana e o contacto posterior entre as civilizações cristã e islâmica chegaram a produção de azulejaria e as suas técnicas. Os primeiros azulejos denunciavam nas cores e nas formas geométricas, estreladas, estilizadas, o traço indelével árabe. Nas técnicas, também, destacando-se aqui a da chamada «corda seca», que consistia na marcação de traços de manganés, de forma a separar os esmaltes das várias cores. A técnica da «corda seca» também se aplicou a outras peças de cerâmica, como comprovam, por exemplo, escavações realizadas em Mértola. No final da Idade Média, Málaga, Sevilha e Toledo destacam-se como centros de produção na Península.

Será já em Quinhentos e sob influência das técnicas italianas que o azulejo começará a ser produzido em Portugal. Nos 200 anos que se seguem, a produção azulejar em Lisboa é tal que a capital portuguesa se torna conhecida como a «cidade da faiança». Contudo, vai ser preciso esperar pelo século XVIII para que os painéis de azulejos atinjam a sua pujança máxima, em encenações de tipo operático ou teatral tanto ao gosto da época. Como às vezes a nossa memória desliza no verniz da superfície, muitos associam a palavra «azulejo» ao adjectivo «azul» pelo cromatismo característico desta época, e que, afinal, nada teve a ver com a origem árabe dos azulejos, mas antes com o fascínio pela porcelana chinesa. Mais duzentos anos passam e os azulejos continuam a marcar a arte lusa.

Despojados da pujança barroca, adaptados às linhas nobres do neoclássico, ao tradicionalismo historicista, às chicotadas do estilo «Arte Nova», às geometrias da «Art Déco» e a toda a variedade plástica contemporânea, irão cobrir as paredes das estações de metro, de ruas e de prédios, de padarias, cafés, edifícios públicos. Poderá parecer que os painéis das cidades abstractas de Vieira da Silva que vemos na estação de metro do Rato ou da Cidade Universitária nada têm a ver com esses longínquos ladrilhos usados em palácios e mesquitas, da Pérsia a Bagdade. É possível, ainda, encontrar alguma relação entre as figuras estilizadas da Avenida Infante Santo e as linhas radiais desses azulejos que rodeiam a porta da Sala Árabe no Palácio da Vila de Sintra? Em Portugal, a história do azulejo é longa e com muitos traços.

Mais difusa que nos azulejos será a influência islâmica nos tapetes - sobretudo os de Arraiolos. Crê-se que os célebres tapetes começam a ser ali fabricados quando a região ainda faz parte do «Gharb al-Ândalus». Terão sobrevivido à Reconquista e até ao desaparecimento de populações muçulmanas, após a sua expulsão em 1496. As tradições mouriscas estão já fortemente implantadas nesta vila do Sul. Da base de linho, sobre a qual era empregue a seda e a lã, no século XVII, os tapetes de Arraiolos passam a ser bordados sobre canhamaço. A influência orientalizante não chegou nas caravanas mouras, mas antes nas naus dos Descobrimentos, que trazem tapetes da Pérsia Oriental. Cria-se, assim, um dos motivos mais característicos desta indústria, que hoje inclui não apenas os tapetes produzidos em Arraiolos, mas todos aqueles que utilizam o chamado «ponto de Arraiolos», conhecido também como «ponto grego» ou «ponto eslavo». Conta-se que, ainda no século XVII, aqueles tapetes cobriam o chão da Igreja de São Roque, trazidos pelos criados das casas nobres, que assim guardavam lugar, na véspera, para que os respectivos amos pudessem assistir aos tão concorridos sermões do grande padre António Vieira.

Outras artes desenvolveram os muçulmanos na Península Ibérica ocupada: nos metais, na pedra, na produção cerâmica. No que toca às artes decorativas no território português do «Gharb», seria nos tapetes e, sobretudo, nos azulejos que a voz da herança islâmica mais alto falou.