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Arquitectura de inspiração islâmica em Portugal

Texto de José Manuel Fernandes
27/10/2001 - in Expresso Revista

  Embora sejam múltiplos os modos de nos referirmos em português à arquitectura de influência islâmica em Portugal, sendo habitual a imprecisa designação de «arquitectura árabe» (proveniente da Arábia) ou «mourisca» (proveniente do Norte de África, nomeadamente de Marrocos), para além da expressão mais genérica de «islâmica» -- há dois aspectos que podem ser afirmados com alguma certeza:

1. Os vestígios de arquitectura monumental deixada pela presença efectiva da cultura muçulmana em território português são hoje relativamente escassos, se comparados com a importância de legados arquitectónicos do Al-Andaluz em terras de Espanha (como em Córdova ou em Granada) - e isto apesar da presença dominante islâmica ter durado no sul de Portugal praticamente o idêntico tempo meio-milenar em que aqui anteriormente persistira o domínio romano;

2. Apesar dessa escassez, a ideia da influência islâmica retornou e retorna com certa periodicidade ao nosso país: quer como cultura construída miscigenada, de «persistência» (a arquitectura popular e semi-erudita do chamado «gótico alentejano» mudéjar, em mistura de formas e materiais na transição dos séculos XV-XVI, com as suas típicas abobadilhas de tijoleira e os rendilhados cerâmicos); quer ao longo dos séculos XIX e XX, desta feita num quadro de inspiração livre, poética e romântica em Oitocentos e nos anos de 1900 (com os neo-arabismos e os neo-mouriscos); quer ainda por via de uma utilidade efectiva nos fins do século XX (com a presença forte da comunidade islâmica de língua portuguesa oriunda do eixo «índico» de Goa-Diu-Moçambique, reforçada sobretudo depois da descolonização de 1975).

Anotemos pois algumas das mais significativas obras arquitecturais deste «tempo longo» histórico, que desde o século VIII está respeitavelmente presente na edificação do nosso território, fazendo parte integrante da nossa cultura construída.

Comecemos pela fase de dominação política islâmica em Portugal. Na arquitectura militar podem mencionar-se os vestígios da chamada Cerca Moura de Lisboa (embora de génese certamente romana), e sobretudo os dos castelos de Santa Maria da Feira e de Silves (desta última cidade são os mais nítidos vestígios, com torre datada de 1227, e um poço-cisterna do século XII), para além de vestígios menores nos castelos de Montemor-o-Velho, Pombal e Soure, da sumida «Porta da Traição» em Coimbra, e da cerca almóada em Elvas.

É na arquitectura religiosa que encontramos o mais forte e claro exemplo da arquitectura islâmica: na antiga mesquita de Mértola (provavelmente do século XII, actual igreja matriz, reformada pelo gosto manuelino em Quinhentos), encontramos ainda hoje um espaço interior bem marcado pela ideia muçulmana do «espaço-labirinto», multidireccionado, por via dos sistema de colunas que o preenche, próximas umas das outras, mas sem definir um único caminho, qual floresta de apoios estáticos e equidistantes - o chamado «espaço-mesquita». De sentido «vertical» (privilegiando assim, em «eixo Terra-Céu», a relação Indivíduo-Deus) e «introvertido» (escondido por muros sem janelas e protegido por ruelas e becos), o espaço característico da cultura islâmica é, de resto, imanente a grandes áreas urbanas de múltiplas povoações portuguesas, a começar em Alfama e a continuar nas múltiplas mourarias do Alentejo e Beiras.

O designado «luso-mourisco», do tempo mudéjar-manuelino e do espaço Tardo-Gótico Alentejano, soube reavivar e cristianizar esta tradição luminosa, decorativa e festiva, herdada do anterior tempo muçulmano, construindo-a de modo mais público e extrovertido, à maneira ocidental. Este aspecto está bem patente nas pequenas igrejas meridionais, em Évora e Beja, ou nas de Borba, Vimieiro e Viana, entre outras - brancas, feitas de pináculos, coruchéus e ameias rendilhadas. Há igualmente os delicados arcos ultrapassados de inúmeros claustros, e acima de tudo das fachadas dos exemplos sempre soberbos de paços civis, culminado no da Sempre Noiva (Arraiolos) e de Água de Peixes (Alvito). Mesmo o Manuelino «maior» dos Jerónimos e de Setúbal mereceria um olhar mais atento, no que deixa transparecer da herança espacial islâmica - a título de exemplo, refira-se o portentoso «espaço-caixa» da vasta nave de Belém, internamente de sugestão pluridireccional, sem «fachada» axial: é quase um «espaço-mesquita», apenas celebrado secundariamente pelo brilhante portal lateral.

No século XIX será o gosto burguês por um certo exotismo que irá reavivar e revivescer o desenho de tradição islâmica, agora em registo de tom mais formalista, superficial ou decorativo: são os pavilhões neo-árabes e neo-mouriscos da Quinta do Relógio, em Sintra (1850-60), o impressivo salão da Associação Comercial do Porto (1862), a Casa Ribeiro da Cunha (1871-79) e o Palacete Conceição Silva (1888), ambos em Lisboa, a mais famosa Praça de Touros do Campo Pequeno (de 1891), culminando no mais profuso e interessante «Pátio Mourisco» do Club Majestic, depois a nossa actual Casa do Alentejo (1917).

Mais notáveis são, sobretudo, as três ou quatro «Casas Mouriscas» pelo arquitecto Raul Lino (Monsalvat, de 1901, Silva Gomes, de 1902 e Vila Tânger, de 1903, todas no Monte Estoril), pela sua inovadora e imaginosa articulação entre espaço e decoração, e consequente criação de um claro ambiente «íntimo» da vida familiar.

Depois do evidente «interregno moderno», dos anos 1930 a 1960, foi a presença da forte comunidade islâmica em Lisboa, na sequência da descolonização, que deu azo à edificação da primeira mesquita portuguesa moderna, em Lisboa, felizmente desenhada e edificada com qualidade expressiva, dentro de uma releitura vernacular das tipologias islâmicas internacionais e orientalistas, e do seu entendimento com sentido actual (por João Paulo Conceição e António Braga, 1979).

A mesquita de Lisboa, revestida integralmente a tijolo maciço (o que assegura a unidade e força plástica do conjunto), define-se numa volumetria densa e «cúbica», pontuada pelos vãos de reixas de madeira com motivos tradicionais, e é marcada pela expressiva torre de chamada às orações.

Outras obras afirmam ou afirmarão, esperemos que brevemente, a longa presença e complexa integração do mundo islâmico entre nós - seja o recente templo de Aga Khan, em Lisboa, seja a futura mesquita anunciada como a edificar no Porto.